Sempre me parece estranho encarar um filme basicamente sobre guerras sob a perspectiva das virtudes. É engraçado como, em geral, o cinema de ação e violência, tenta higienizar os conceitos de guerra para tentar dar a ela tons positivos e afirmativos. Entretanto, ao mesmo tempo, o mesmo cinema tenta esconder o que há por trás de todo sangue derramado, para expor apenas o próprio sangue, a batalha, a luta corpo a corpo. É o que Walter Benjamin vai chamar de “estetização da guerra”, ou seja, apresentar o horror da forma mais bela possível. E a gente compra.
300: A Ascensão do Império (2014), de Noam Murro, espécie de continuação de 300 (2006), se passa ainda na disputa entre a Grécia e a Pérsia, mais ou menos no mesmo período em que o filme anterior. Dessa vez, o foco está na duradoura batalha entre o exército de Atenas, liderado por Temístocles (Sullivan Stapleton) e Artemísia (Eva Green), espécie de irmã de Xérxis (Rodrigo Santoro). Após uma longa negociação, o objetivo de Temístocles é finalmente unir toda a Grécia para a vitória final contra o Império Persa.
Basicamente, o filme mantém a mesma estética e o estilo do primeiro, com a diferença de que agora a intenção é fazer com que as imagens que eram construídas em 2D, dentro do estilo das HQs, sofram uma certa mistura, no esforço da transposição para o 3D. O 3D, entretanto, novamente fracassa. É preciso entender, de uma vez por todas, que essa estética não deve servir apenas para respingar sangue, fogos, estrelinhas e gotas de suor e chuva nos olhos dos espectadores, mas para uma nova composição de cinema em que as vilosidades, as dobras, sejam reconfiguradas para que se produza em nossa retina um novo projeto de imagem. Apenas como comparação, o cinema 3D poderia se inspirar no estilo barroco.
De resto, 300: A Ascensão do Império é uma cópia de sua obra anterior: relações de pai e filho, heróis guerreiros prontos a dar a vida, músculos excessivamente trabalhados para um período grego, imagens não-realistas, compostas e mexidas todas em estúdio, e personagens que não tem muito tempo para se desenvolver, a não ser na força física. O Xérxis de Rodrigo Santoro, mais uma vez, teria tudo para ser uma figura imponente, mas é apenas um ser andrógino repleto de caras e bocas. Eva Green continua belíssima, mas como vilã só consegue ser muito sexy. Sullivan Stapleton se esforça, mas seu personagem está longe de ser o Leônidas de Gerard Butler. Assim, todo o resto se torna um apêndice ou um citação de seu filho mais velho.
A estética dos quadrinhos, tão utilizada no cinema contemporâneo, parece perder fôlego em grandes produções, pois, ao que se vê não é o cinema que usa os quadrinhos, mas as HQs que procuram no cinema um nicho de aumento de produção e consumo. O fato é que 300: A Ascensão do Império estreou no Brasil no final do verão, início do outono, mas suas folhas já estavam caídas faz tempo.
O filme está em cartaz no Cinemaxx Mercado Estação, na sala 3D, com sessões dubladas às 16h40 e 18h50, e legendada, às 21h. Já no Cine Bauhaus, as sessões legendadas são às 14h, 16h e 18h.
Luiz Antonio Ribeiro 28 anos, dramaturgo, letrista, crítico e flamenguista. É bacharel em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja e ócio criativo. Desde 2011 é membro do grupo Teatro Voador Não Identificado. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul