Entrevistas

[Entrevista] Sueli Carneiro fala da importância do legado de Lélia Gonzalez no ativismo negro

Uma das vozes mais influentes do pensamento negro e feminista no Brasil, a filósofa e escritora Sueli Carneiro recebeu o Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano durante o Festival Literário Internacional de Petrópolis, o Flipetrópolis.

A jornalista Flávia Oliveira fez um discurso em tributo à trajetória e à contribuição intelectual e política de Sueli Carneiro, que recebeu o prêmio das mãos da jornalista Miriam Leitão, vencedora do ano passado. A escritora Conceição Evaristo, que venceu o Juca Pato em 2023, também esteve presente e a homenageou. 

O prêmio da União Brasileira de Escritores – Seção SP(UBESP) é concedido a uma personalidade que tenha publicado uma obra relevante no ano anterior, levando também em consideração a sua contribuição na defesa de questões humanas, sociais e culturais do país. Sueli Carneiro foi a vencedora da edição de 2025 com o livro “Lélia Gonzalez: um retrato”.

“Lélia Gonzalez é referência da minha geração de militante e ativista negra. Foi com ela que aprendemos o que é ser mulher negra na sociedade brasileira, a olhar essa condição de tamanha exclusão que vivemos, que aprendemos a nos organizar politicamente como mulheres negras e a enfrentar todas imposições estéticas que a opressão racista nos impõe. Lélia foi a musa inspiradora disso que hoje é chamado feminismo negro, e cuja característica fundamental foi a insubordinação, a insurgência, a ousadia no pensar e no agir”, destaca Sueli.

Sueli Carneiro e Conceição Evaristo / Foto: AeP

Criado em 1962, o Juca Pato de Intelectual do Ano já foi concedido a nomes como Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Darcy Ribeiro, Frei Betto, Fernando Henrique Cardoso, Ziraldo e Conceição Evaristo, que foi a primeira mulher negra a vencer o prêmio.

“Eu recebo esse prêmio em honra à Lélia e a tudo que ela significa para as mulheres negras, em honra a tudo que ela nos deu e que nós buscamos devolver na forma de legado para as próximas gerações, inspirada nela”, comenta a escritora.

A filósofa e ativista recorda ainda que viu Lélia, pela primeira vez, num seminário feminista e ali descobriu o que queria ser quando crescesse.

“A coisa que mais marcou a minha vida foi ver e ouvir Lélia Gonzalez. Ela é muito festejada hoje, mas é muito recente a sua publicação. Nessa obra, eu procurei ressaltar esse lado dela que as publicações mais recentes pouco enfatizavam, que é o do ativismo, sua presença na esfera pública, a capacidade dela de influenciar agendas políticas, sua ousadia de questionar outros sujeitos políticos, porque ela foi ‘uma criadora de caso’. A Lélia que me inspirou foi a Lélia que questionou a hegemonia masculina no movimento negro, que questionou a falta de compreensão do feminismo branco acerca das questões específicas das mulheres negras, questionou os partidos políticos pela falta de compromisso na questão racial e na questão de gênero, ou seja, colocou dedo na ferida e, com isso, ela nos ensinou a não aceitar passivamente uma série de interdições, de silenciamentos”, conclui.

Sueli Carneiro é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra – primeira organização negra e feminista independente de São Paulo. Teórica da questão da mulher negra, criou o único programa brasileiro de orientação na área de saúde física e mental específico para mulheres negras, onde mais de trinta mulheres são atendidas semanalmente por psicólogos e assistentes sociais.

É também autora das obras “Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil”, “Escritos de uma vida” e “Dispositivo de racialidade: A construção do outro como não ser como fundamento do ser”.

*Com informações do Geledés Instituto da Mulher Negra

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