Entrevistas

[Entrevista] Lucas Toledo e Gabriel Bulcão falam sobre novo espetáculo que alia dramaturgia e ilusionismo

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação.”

É com essa frase que Guy Debord inicia sua famosa obra “A Sociedade do Espetáculo”, publicada em 1967, que fala sobre uma sociedade que está cada vez mais preocupada com as aparências e em “performar”, do que com as experiências autênticas da vida concreta.

Esse também é o ponto de partida do novo espetáculo de ilusionismo “Aquilo que você não vê”, que se apresenta no Teatro Imperial neste sábado (29), às 20h. Protagonizado por Lucas Toledo e Gabriel Bulcão, a proposta integra técnicas de mágica a uma dramaturgia contemporânea sobre as aparências e os comportamentos que construímos diante dos outros.

Para falar sobre o espetáculo, conversamos com Lucas Toledo e Gabriel Bulcão. Confira abaixo:

Como “Aquilo que você não vê” integra ilusionismo e dramaturgia?

Lucas: Ele segue a mesma linha do “Fora deste mundo” e do “Não pisque” que já fazem essa união, mas agora isso é potencializado, pois além de dirigir, o Gabriel contracena comigo e toca a trilha ao vivo no piano. Como nos outros espetáculos, este também é interativo, eu chamo pessoas ao palco, vou até elas na plateia. No início tem um número que 60 pessoas participam ao mesmo tempo.

Gabriel: Quando vamos fazer um espetáculo, criamos um argumento, um tema e o Lucas faz um curadoria de números de mágica que tenham a ver com aquele tema. Nada ali está solto, as mágicas têm uma ligação e também contam a história. A gente foge da lógica do “entretenimento pelo entretenimento”, os números de mágica se integram ao tema.

E falando no tema, vocês se inspiraram em “A Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord.

Gabriel: Em 1967, o Guy Debord já falava da Sociedade do Espetáculo sob uma ótica capitalista, só que nós percebemos que isso não mudou. Se pensarmos numa linha de produção de garrafas, por exemplo, uma garrafa amassada é logo descartada. E no espetáculo, a gente fala justamente do contrário. A autenticidade está em ser diferente, em não seguir a linha de produção, é ser a garrafa que está lá amassada e não vai para o mercado para ser vendida. Daí vem o nome “Aquilo que você não vê”.

Lucas: Toda mágica tem um “truque”, que chamamos de segredo, então fizemos essa brincadeira do “truque” que a gente vê o outro fazendo todo dia e fingimos que não vemos, essa coisa performática de parecer mais rico, mais bonito, mais magro, enfim, tudo isso é um “truque” que a gente finge que não faz e o outro finge que não está vendo a gente fazer, por isso a mágica se encaixou bem quando começamos a trabalhar esse tema.

Gabriel: Acho que isso está um pouco pior porque a gente aceita que fingir é o certo, que parecer ser alguma coisa é o certo.

Isso é potencializado pelas redes sociais. Qual é a relação de vocês com elas? 

Gabriel: Eu tento usar como portfólio, mas não sou de publicar muitas coisas pessoais porque sou bastante reservado. Eu tenho rede social porque preciso como ator, mas se pudesse não teria.

Lucas: Se eu não tivesse que divulgar meu trabalho, eu também não teria redes sociais.

Vocês se preocupam com engajamento, número de seguidores, sentem que isso faz diferença na hora de ser contratado para algum trabalho?

Gabriel: Eu me preocupo porque como ator, eu perco trabalho por causa disso. Uma vez perdi um trabalho porque não tinha 100 mil seguidores, e isso me chateia porque a qualidade do meu trabalho acaba sendo interferida por isso.

A ideia de se basear no texto do Guy Debord vem dessa vivência?

Lucas: A gente começou pelo texto “O Erro de Narciso”, do Louis Lavelle, que é mais específico, então achamos que o do Guy Debord era mais amplo, mais acessível. A gente quer fazer um espetáculo que fale de algo sério, mas de uma maneira popular, para que a família toda se divirta e também reflita.

Gabriel: Esses livros de filosofia são os pilares, mas a peça surge da nossa experiência e das nossas referências. Não é um espetáculo de difícil entendimento, pelo contrário, criamos pensando em todas as idades.

Além do entretenimento, qual mensagem que vocês gostariam que as pessoas refletissem após assistir ao espetáculo?

Lucas: Para não se preocuparem muito com o olhar do outro. É claro que essa preocupação existe, principalmente no meio profissional, mas a gente acaba levando isso muito a sério para a vida. Não vale muito a pena se prender a essas coisas.

Gabriel: Eu gostaria muito que a gente conseguisse fazer com que o público gostasse mais dele, do indivíduo, e buscasse ser o mais autêntico possível, porque essa liberdade ninguém paga.

Marianne Wilbert

Jornalista, pós-graduada em mídias digitais.
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