Pelo segundo ano consecutivo, a jornalista, escritora e economista Miriam Leitão participou do Festival Literário Internacional de Petrópolis – Flipetrópolis, realizado no Palácio de Cristal. Além de integrar as mesas “Novas Narrativas — HQ, Séries e Ficção Climática” e “A literatura e o pensamento social se encontram para compreender um país em transformação”, Míriam entregou o Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano 2025 UBE-SP à Sueli Carneiro.
“A minha experiência em festivais é muito boa, porque é sempre surpreendente esse encontro com leitores de todas as faixas etárias. Com cada idade, a conversa é diferente e para o autor é muito importante esse contato porque a gente sempre aprende. O festival aqui em Petrópolis tem um sabor especial porque, primeiro, é nesse palácio lindo, tem toda a história da cidade e somos muito bem acolhidos”, comenta Míriam.
Em uma rápida entrevista, ela recordou os livros que a marcaram durante a vida e falou sobre suas próprias publicações.
Mesmo tendo morado numa cidade sem livraria, Míriam vem de uma casa que tinha muitos livros e uma família que sempre a incentivou a ler. Como uma criança extremamente tímida, não havia nada que ela gostasse mais do que mergulhar nas histórias. “Fui uma criança leitora e acho que a criança leitora veio conduzindo a mulher ao longo da vida. Eu vivia no mundo dos livros, eu não tinha outro brinquedo mais interessante que um livro novo, então eu entrava na fantasia totalmente e carreguei isso comigo”, recorda.
Dos muitos livros que leu na infância, “As aventuras do Barão de Münchausen”, de Rudolf Erich Raspe, foi uma história que a marcou. “Eu ganhei esse livro de um menino da escola quando tinha 8 anos, e me apaixonei profundamente pela história. É um livro do século XVIII e na trama, o barão passa por várias situações fantásticas, como uma que ele cai num pântano e se tira de lá se puxando pelos cabelos. Eu nem tinha me dado conta do quanto esse livro me marcou, porque passei a vida inteira falando ‘eu vou me tirar desse pântano me tirando pelos cabelos’ cada vez que me encontrava numa situação ruim, sem me atentar que essa expressão estava relacionada à essa história”, conta.
Míriam lembra que foi uma leitora precoce, tendo entrado em contato com grandes clássicos da literatura ainda jovem. Aos 11 anos, leu “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, obras de José de Alencar, e na adolescência, obras como “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, e “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez. Ela cita ainda Graciliano Ramos e Simone de Beauvoir entre os livros que a marcaram e que ela acha que todos deveriam ler. “Aos 12 anos li ‘Vidas Secas’ e acho que todo jovem deveria ler. Graciliano trata da pobreza no sentido mais agudo da palavra. Este livro é como se tivesse me mostrado todas as chagas do Brasil e despertou a minha consciência social. Eu o li e reli várias vezes porque achei que precisava guardar todas aquelas palavras. Já aos 17 anos, li ‘O Segundo Sexo’ e para mim foi uma iluminação porque a Simone de Beauvoir me ensinou o que eu estava sentindo e eu entendi o mundo a partir daí”, indica.
Autora de diversos livros infantis, como “A perigosa vida dos passarinhos pequenos”, “O estranho caso do sono perdido”, “As aventuras do tempo” e “Lulli, a gata aventureira”, a jornalista conta que seus netos são a sua grande inspiração. “O que deu o estalo para começar a escrever para crianças foi ter netos. É muito encantador ver a vida recomeçando depois de ter criado seus filhos, de repente você está mais aberto e as histórias vieram a partir de, muitas vezes, provocações dos meus netos, de coisas que eu vivi com eles. Eles foram a inspiração de vários livros. E foi tão natural que é como se a escritora de livros infantis sempre estivesse aqui”, destaca.
A escritora e jornalista também tem diversos livros de ficção e não ficção voltados para o público adulto, tendo acabado de terminar seu mais novo trabalho. “Eu gosto de comunicar em qualquer canal, tanto em livro de não ficção quanto de ficção. Acabei de entregar um novo à editora, chamado ‘A dança de Elisa’, que é uma distopia feminista, uma onda conservadora e como as mulheres vão lidando com isso. Em ‘Tempos Extremos’, por exemplo, eu juntei escravidão e ditadura, no qual faço um diálogo entre as duas dores do Brasil sem equiparação, pois a dor da escravidão, evidentemente, é a mais vasta e profunda dor que o Brasil carrega. Ao mesmo tempo eu conto como foi estabilizar a economia brasileira num livro de história econômica, que é o ‘Saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda'”, conclui.
Míriam Leitão tem 16 livros publicados, é jornalista de jornal impresso, rádio, TV e mídia digital. Em 53 anos de vida profissional, trabalhou em vários veículos de imprensa, entre eles Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil. Desde 1991 está no grupo Globo, é colunista do jornal O Globo, comentarista do Bom Dia Brasil, Globonews, CBN e âncora do programa de entrevistas Míriam Leitão Globonews. Em abril deste ano, foi eleita para a Cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL), na vaga deixada pelo cineasta Cacá Diegues.
*Com informações da Agência Brasil



