Educação

Petropolitano discursa no Fórum Mundial de Diálogo Intercultural, no Azerbaijão

“Eu venho do Brasil, onde uma discussão sobre futebol vira crise nacional. Então, acreditem, eu entendo alguma coisa de gente que discorda e mesmo assim precisa trabalhar junto.”

Foi assim que o petropolitano Tales Gomes abriu a fala no painel “Liderança intercultural para futuros compartilhados”, no 7º Fórum Mundial de Diálogo Intercultural. O encontro aconteceu em Baku, no Azerbaijão, organizado pelo governo azeri em parceria com a UNESCO e outros organismos internacionais.

Tales chegou ao fórum pelo Jovens pela Paz (Youth for Peace), programa de liderança intercultural da UNESCO. A primeira turma reuniu 50 líderes de 48 países, escolhidos entre mais de 8 mil projetos inscritos, e ele foi o representante brasileiro.

A jornada até Baku começou em Petrópolis. Em agosto de 2025, Tales fundou na cidade o “Trilhar Labs”, programa de educação empreendedora para jovens de 11 a 17 anos. As primeiras turmas foram nos colégios PENSI e PRW. Hoje, o programa já passou por 11 instituições de Petrópolis, Rio de Janeiro e Três Rios.

No painel, a ideia central foi uma só: propósito comum não exige que todo mundo pense igual. “Aprendi uma coisa que talvez seja meio contraintuitiva: você não precisa que as pessoas concordem para trabalharem juntas. Se o seu primeiro objetivo é o acordo, você pode acabar destruindo a diversidade que faz a colaboração valer a pena”, disse.

A prova que ele apresentou foi o Trilhar Maker Labs, laboratório feito em 2026 com a UNESCO. Foram 300 jovens de 8 escolas, 270 deles de escola pública, entre eles alunos do CEFET Petrópolis e do CIEP Cecília Meirelles. Em grupos, os alunos escutaram a própria comunidade, escolheram um problema real e criaram uma solução. Tales contou ao público a conversa com um aluno que ele convidou a trabalhar com o tema da migração. “Ele me respondeu: peraí, eu é que preciso de ajuda. Por que eu deveria ajudar os outros? É uma pergunta válida. E o propósito comum tem que ser forte o bastante pra responder perguntas como essa.”

Para Tales, isso muda o jeito de a escola lidar com conflito. Em vez de colocar os alunos pra debater, ele propõe colocá-los pra construir alguma coisa juntos. “Num debate, sempre tem um vencedor e um perdedor. Quando os jovens precisam entregar um projeto, com prazo e recursos contados, ter razão deixa de ser o objetivo. O objetivo passa a ser terminar, e pra terminar o grupo inteiro precisa estar dentro.”

Ele também apresentou o BRIDGES, jogo de cartas criado a partir dos Story Circles da UNESCO e do Triângulo do Conflito, do sociólogo norueguês Johan Galtung. O jogo leva os participantes a escutar, agir e transformar uma situação de tensão. “Não dá pra ganhar provando que você tem razão”, resumiu.

A outra frente da fala foi a confiança, assunto delicado para quem trabalha com comunidades que já se sentiram abandonadas. Tales usou um exemplo que qualquer brasileiro reconhece. “Aqui, a confiança entre vizinhos começa com uma xícara de açúcar emprestada, que você devolve com um pouquinho a mais. Ninguém te empresta o carro no primeiro dia. Muitas comunidades já foram decepcionadas por instituições, e seria injusto chegar esperando confiança logo de cara. Então a gente começa pequeno e cumpre o que promete.”

Perguntado sobre qual qualidade um líder precisa pra trabalhar entre culturas diferentes, ele não escolheu empatia nem tolerância. “Eu diria curiosidade. Curiosidade é o que acontece no momento em que eu poderia julgar você, mas decido fazer mais uma pergunta.”

De volta ao Brasil, Tales prepara o DemoDay Trilhar Labs 2026, marcado para 26 de novembro, em Petrópolis. Cerca de 15 projetos criados pelos alunos ao longo do ano vão ser apresentados.

Sobre o Trilhar Labs

O Trilhar Labs foi fundado em agosto de 2025, em Petrópolis, e leva empreendedorismo, educação financeira e tecnologia a jovens de 11 a 17 anos. Presente em 11 instituições de Petrópolis, Rio de Janeiro e Três Rios, o projeto tem três apostilas autorais com ISBN. É parceiro da UNESCO, com quem realizou o Trilhar Maker Labs e o Pitch for Peace, este também com apoio da FAPERJ. Em 2025, recebeu o Prêmio de Negócios de Impacto no TEDx Petrópolis Countdown.

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