A relação entre quadrinhos e cinema nunca esteve tão próxima e fortalecida. Um atrás do outro, os filmes de super-herói vêm sendo adaptados para as telonas e ganhando inclusive, sequências quase que no formato dos quadrinhos: com um desapego à narrativa, as histórias pessoais e, inclusive, aos personagens e suas representações. Tanto que em espaços pequenos de 4, 5 anos se faz filmes do mesmo herói com atores e abordagens completamente diferentes. O que eu gostaria de destacar nessa relação entre cinema e quadrinhos é um fato curioso que venho observando.
Os super-heróis eram invencíveis, perfeitos, belos, geniais e podiam fazer tudo e qualquer coisa. A Marvel, responsável pela publicação desses personagens, resolveu então, lá pela década de 60, criar fraquezas para os heróis para que, aos poucos, eles se tornassem um pouco humanos, com fragilidades, sofrimentos, crises e problemas familiares. Assim, quase todos ficaram completamente infelizes. O Super Homem, no entanto, permanecia uma incógnita: como torná-lo frágil? A solução foi um bocado artificial, a famosa pedra kryptonita, a única capaz de enfraquecer o herói. Esse movimento de achar fragilidades parece chegar agora ao cinema, com adaptações cada vez mais sofridas e lamentosas. Um pouco disso se pode ver em O Homem de Aço (2013), de Zack Snyder.
O filme pode ser dividido em três partes: a primeira, como um prólogo, acontece em Krypton que vive um colapso que está prestes a destruir o planeta. O pai de Clark (Russell Crowe) esconde um código com o filho e resolve enviá-lo para a Terra para, quem sabe, poder manter a raça deles viva. A segunda parte consiste na infância e adolescência do rapaz, quando descobre seus poderes e começa a salvar as pessoas próximas a si, ao mesmo tempo em que sofre preconceito, monta sua personalidade e vive dilemas éticos. A última parte trata a invasão do General Zod, sobrevivente de Krypton, que pretende achar o código que está com Clark para fins escusos.
Acontece que, ao tentar fazer essas três coisas, o filme não faz nenhuma muito bem. A história de Krypton é apressada, estranha, corrida, cheia de pequenas coisas que são apenas insinuadas, mas não acontecem, ao mesmo tempo em que cronologicamente se estende excessivamente. Chega uma hora em que você pensa: “ok, mas cadê o Super Homem?”. Quando ele aparece, o que se vê é uma espécie de teaser de Smallville, com breves histórias de bullying, brigas de bar, namoricos e afins, claro, repleto de dúvidas, questões e dramalhões que se resolvem sempre com um bom conselho do pai terreno (Kevin Costner). Aí, finalmente quando ele vira super herói, o filme vira um embuste de Matrix.
O ator (Henry Cavill) não convence porque o personagem não convence. A história não convence porque é frágil, fraca e não se sustenta. A tentativa de mostrar a escolha de Kent pela Terra desemboca em algo que nem ao menos foi anunciado: ele não oscila, não reflete, parece que a todo tempo, a decisão já estava tomada. Além disso, o fantasma de Crowe começa a aparecer e se meter na história, como para redimir a falta de sentido que foi se configurando no decorrer da obra.
O Homem de Aço, como resultado, é um imenso desperdício de tecnologia, dinheiro e possibilidades. É jogar contra o Super Homem e toda a sua história, é cuspir na cara de uma tradição que, pro bem ou pro mal, faz parte da nossa memória afetiva. As cenas criadas exclusivamente para o 3D, com batalhas à lá Neo, chegam a passar uma sensação de déjà vu, mas o que se via antes, que prescindia o 3D, também não estava lá muito interessante. Trata-se de um filme que, ao término, a gente lamenta de perceber que tudo foi feito daquela forma, como se acabássemos de presenciar um quase desrespeito aos espectadores e aos fãs.
O filme está em cartaz no Cine Bauhaus, em cópia legendada, com sessões às 14h, 17h e 20h. Já no Cinemaxx Mercado Estação, as sessões dubladas acontecem às 13:40h, 16:20h, 19:00h e 21:40h. A classificação é 12 anos.
Luiz Antonio Ribeiro é dramaturgo, letrista, crítico, poeta e flamenguista. É bacharel em Teoria do Teatro pela UNIRIO, onde atualmente é graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja e ócio criativo. Desde 2011 é membro do grupo Teatro Voador Não Identificado. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro
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