Cidade

Movimento Cinema Petrópolis luta pela reativação do espaço

Ao caminhar pela Rua do Imperador, é difícil não reparar na fachada do antigo Cinema Petrópolis e sentir um pouco de nostalgia. Quantos casais devem ter tido ali o seu primeiro encontro? Quantas pessoas ali tiveram suas primeiras experiências com a sétima arte? São tantas histórias ecoando entre aquelas paredes, onde hoje se encontra um espaço vazio.

Foi vsando reconstruir esta importante parte histórica e artística da cidade que surgiu o Movimento Cinema Petrópolis, cuja página no Facebook já conta com mais de 2 mil seguidores em menos de duas semanas desde sua criação.

Idealizado por Yuri Lima (gerente de comunicação social, estudante de jornalismo na Estácio de Sá, ator e músico), ele também conta com o auxílio de Fernanda Lyra (estudante de História e Teatro, musicista e vocalista da banda Café Bordel), Lucas Torres (formado em Administração pela UFRRJ, músico e ator) e Lorran Kasesky (estudante de Arquitetura, e foi um dos responsáveis pelo evento que levou milhares de pessoas às ruas de Petrópolis em 2013).

A decisão de criar o movimento veio com a publicação de uma matéria veiculada num jornal local, que falava do interesse de um grupo do Rio de Janeiro em resgatar o espaço. “O Cinema Petrópolis é um marco. Como os outros pontos turísticos da nossa cidade, ele é uma catedral do Cinema. Principalmente pela sua estrutura arquitetônica em estilo déco e sua importância na memória dos petropolitanos. Além disso, a relevância do espaço sempre fora algo corriqueiro em minha vida. Eu e meus amigos sempre passávamos por aquele local e imaginávamos o quanto de boas memórias foram tiradas da nossa geração, mais jovem, que não teve a oportunidade de estar envolvida em cultura em um local tão colossal e importante quanto este”, conta Yuri.

Atualmente, o lugar pertence à Igreja Deus é Amor, que informou recentemente que o prédio não está à venda e deve ser reaberto como templo religioso nos próximos meses. Contudo, Yuri afirma que a luta não é contra a instituição pentecostal que é proprietária e sim, o diálogo com a mesma. “Com o diálogo e com o apoio do poder Executivo da cidade, nós podemos buscar, de forma pragmática, ações que possam ser de benefício mútuo para o poder público, para a opinião pública e para a Igreja. A ideia é demonstrar que, na memória e na visão da maioria das pessoas de Petrópolis, aquele espaço é um cinema e deve ser mantido como um. Sua atividade deve ser tombada, como há casos no Rio de Janeiro. Se a Catedral de São Pedro de Alcântara fosse um shopping, por exemplo, as pessoas lutariam para que aquele local voltasse a ser uma igreja e fosse tombada como patrimônio histórico e religioso”, explica.

Desta forma, no próximo mês, no dia 12 de setembro, será realizado um ato em frente ao Cinema Petrópolis com o objetivo da retomada da atividade de Cinema e de abrir diálogo com o poder Executivo.”A proposta do ato também é a de criar uma abertura para que nós possamos fazer uma reunião com o prefeito Rubens Bomtempo. A nossa ação será simples, um dos apoiadores do Movimento, o estudante de Arquitetura Lorran Kasesky está fazendo um levantamento de propriedades que estão em poder do município. Com esta lista poderemos ter uma ‘moeda de troca’ para a igreja. Esse diálogo deve ser aberto entre a prefeitura e os proprietários. Com a relevância da atividade de cinema sendo declarada pela opinião pública, eles deverão entrar em negociação. Como disse, o Cinema é um marco, um ponto turístico e a sua atividade deve ser tombada, entretanto, a Igreja deve receber o auxílio necessário para manter sua atividade em prática. Sem ônus, caberá a vontade do poder público para iniciar esse diálogo”, pontua. O manifesto é independente e não será aceito nenhum tipo de apropriação política.

Sobre o ato

O movimento funcionará de forma artística. Todos os interessados podem se mobilizar da forma que quiserem: criando cartazes ou faixas, fazendo peças de teatro públicas, fazendo seus próprios shows acústicos.

Todas as pessoas, de todas as idades, estão convidadas. Basta comparecer no dia 12 de setembro, a partir das 16h, na frente do Cinema Petrópolis. O ato se organizará de forma natural, então todos os artistas terão a liberdade de se expressarem em local público, sejam eles bandas, cantores, instrumentistas, pintores, grafiteiros. Enfim, todos os interessados devem aparecer e explorar a sua arte em manifesto.

O Cinema360graus confirmou que fará projeções de vários filmes e documentários no dia, relembrando a importância cultural do Cinema Petrópolis.

Saiba mais aqui.

Sobre o cinema

Inaugurado na década de 1940, o prédio de três andares é tombado desde 1998 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), preservando suas características arquitetônicas externas e internas.  A primeira sessão lá exibida foi do filme em tecnicolor “O Fantasma da Ópera”, com Nelson Eddy, Susana Foster e Claude Rains.

Abaixo, segue um trecho do texto de Joaquim Eloy Duarte dos Santos sobre o cinema:

No Cinema Petrópolis reunia-se toda Petrópolis e a programação era de primeira, existindo na Rua do Imperador dois pontos de encontro para papos e paqueras: o cinema e a “Casa D’Ângelo”. Tornaram-se famosas as sessões do cinema das 19,30 horas, nos domingos, a “sessão das sete e meia”, que recebiam filas enormes a partir de 18 horas, lotando a casa e com espectadores em pé nos acessos laterais do grande salão. A gerência abria duas bilheterias direcionadas para as duas vertentes da avenida, subindo uma fila para os lados do “Café Coringa” e a outra descendo diante do frontal do “Savoya Hotel”. O público aumentava e delirava quando o cinema exibia as “chanchadas” da Atlântida, onde pontificavam os nomes de Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte, Eliana Macedo, Cyl Farney, Fada Santoro, Adelaide Chiozzo, o vilão José Lewgoy, o caricato Wilson Grey, cantoras e cantores de rádio, magníficos elencos de apoio, enfim, bilheteria certa e satisfação garantida. Também nos lançamentos dos domingos (naqueles idos o primeiros dia de exibição era aos domingos) o empresário contratava a exuberante produção da Metro-Goldwyn-Meyer, com seus musicais onde pontificavam os nomes de Gene Kelly, Frank Sinatra, Cid Charrise, Jane Powell, Kathryn Grayson, Mário Lanza, Howard Keel, José Iturbi, Donald O’ Connor, Ethel Merman, Judy Garland, Anne Blytt e muitos outros. Todos os grandes lançamentos de Hollywood daqueles anos dourados tiveram suas estréias na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro no “Petrópolis”.

O texto se encontra no site do Instituto Histórico de Petrópolis e pode ser lido na íntegra aqui.

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