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2 Dias em Nova York – o nonsense que sente

Há entre as pessoas dois tipos de índole: a trágica e a cômica. A trágica tem uma forma concentrada, em que todos os elementos da vida estão atuando de acordo com um ponto central e, nesse movimento concêntrico e centrípeto, as situações se reúnem. A outra índole é a cômica, mais livre, em que os eventos da vida são, de forma centrífuga, espalhados, esparsos, interrompidos, fragmentados e escapam sempre por meios inesperados que nos tomam. O mais interessante é que os gêneros não seguem as índoles, portanto, uma índole essencialmente cômica pode abarcar todo um universo trágico. Esse é o caso do genial 2 Dias em Nova York.

2 Dias em Nova York (2012) de Julie Delpy  (a mesma de Antes do Amanhecer) conta  a história de Marion, uma francesa moradora de Nova York que recebe sua família no apartamento em que mora com seu namorado Mingus (Chris Rock). As diferenças de língua, hábitos, índoles e modos de vida ficam latentes em uma série de pequenas confusões, desencontros, peripécias e estripulias, na maioria das vezes causadas ou pelo pai de Marion (Albert Delpy – que é pai de Delpy na vida real), ou pela irmã (Alexia Landeau) ou ainda pelo seu namorado (Alexandre Nahou).

O filme segue os padrões do anterior filme da diretora e atriz, 2 dias em Paris (2007), inclusive mantendo alguns dos personagens e também se utilizando dessa trama articulada na língua, nos costumes e na visão de mundo diferentes entre os países. De intenso humor irônico, ácido, desviante, com cenas patéticas até o limite que beira o inverossímil, Delpy descobre novas formas de compor uma sensibilidade feminina contemporânea dentro de uma lógica do cinema, do humor e do pensamento.

Em um estilo que é comparado ao de Woody Allen com uma câmera alucinada que corre atrás dos personagens verborrágicos, a obra circula por dentre uma tragicidade inescapável da vida, mas que tem um viés profundamente cômico, no melhor estilo “dançar na beira do abismo”, como no momento em que Marion, frustrada, resolve tentar reaver sua alma vendida.

Merece destaque esse pensamento niilista, que parece tão bem elaborado e construído para que uma espécie de entropia, um gasto de energia para nada, esteja constantemente presente no filme. Isso é perceptível em alguns momentos do filme, como um que Mingus, em ótima interpretação de Rock, conversa com um Barack Obama de papelão, espécie de “amigo negão”, para quem ele pede conselhos e expõe seus dramas em viver nesse “mundo demasiadamente branquelo”. A questão é que, tanto Mingus quanto Marion, tal qual as personagens da série Friends, fazem parte de uma geração que começa a envelhecer, mas ainda não conseguiu estruturar sua vida dentro do sonho americano e por serem um bocadinho desviantes, acabam por entrarem em conflitos aparentemente nonsense e desnecessários.

No entanto, o mérito do filme, ao contrário do que se tem dito, é justamente esse: o que se dispende em energia, numa obra com momentos bobos, nonsense e quase ridículos é o esforço de expor como esses elementos fazem parte de nosso mundo contemporâneo e, assim sendo, devem ser pensados não de forma destrutiva, mas como uma fábula, uma narrativa que nos represente enquanto seres deste mesmo mundo. Delpy fez uma obra sensível, repleta de um afeto que se perde nas tarefas cotidianas, mas que consegue, por cima desses escombros do mundo capitalista, reunir alegria, diversão e intenso carinho entre aqueles que se amam.

O filme está em cartaz no Cine Bauhaus, com sessões às 14h20 e 19h20. A classificação é 16 anos.

Luiz Antonio Ribeiro é dramaturgo e poeta, formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO – Univesidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, onde atualmente cursa Letras – Português/Literaturas.

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